WAGNER

Faltou dinheiro e chuva para que Jaques Wagner terminasse 2013 com sorrisos. A seca e o déficit no caixa transformaram-se no peso maior do penúltimo ano do governador à frente do estado. Por outro lado, em 2014, Wagner diz que deseja sorrir com o desenvolvimento das obras de mobilidade na capital e com o Porto Sul, que promete movimentar a economia portuária baiana e a região cacaueira.

Wagner almeja ainda dar risadas com a reeleição de Dilma Rousseff à Presidência e de seu secretário Rui Costa para seu lugar. Para isso, fez até pedidos ao Senhor do Bonfim e tem conversado bastante com Costa. “Ele não precisa ser o advogado do meu governo na campanha”, diz. Ontem, ele recebeu no seu gabinete, no CAB, os editores do Correio Jairo Costa Júnior e Jorge Gauthier para uma conversa sobre a reta final de seu governo. Em 1 hora e 15 minutos de entrevista regada a água sem gás e chá de hortelã – seu preferido – considerou que em 2014 terá um ano atípico, em função dos eventos esportivos, culturais e das eleições. Por conta disso, promete seguir com projetos já iniciados. “Estamos trabalhando. Não podemos deixar o café esfriar”.

Em janeiro, começa seu oitavo ano de mandato. É possível criar novos grandes projetos nesse último período?
Acho que o oitavo ano é atípico, porque em função do processo eleitoral há limitações. É um ano mais curto, tem Copa, Carnaval, festas populares e eleição. Depois de outubro, seja qual for o resultado, tem que fazer o processo de transição. Não existe nenhum sentido criar programa novo, a não ser que seja  emergencial.

O que é possível fazer?
Tem que fazer rodar aquilo que já está planejado, programado. Mesmo agora que alguns (secretários) saem para ser candidatos, tem que ser dada uma continuidade.

Quais projetos terão continuidade este ano?
Em 2014, se você não correr no começo não faz mais nada.  Vamos publicar a licitação do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) do Subúrbio, de Lobato a Pirajá, em janeiro. Amanhã (hoje) sai o edital de licitação das  avenidas 29 de Março e Gal Costa. Dia 6 de janeiro vamos assinar o projeto do Porto Sul (em Ilhéus) e, logo em seguida, será aberta a licitação.  Estamos trabalhando. Não podemos deixar o café esfriar.

Qual foi o mais difícil e o mais fácil desses sete anos?
Destacaria o de 2013 como o mais difícil, por duas coisas que afetam o governo diretamente. A longa estiagem foi uma delas, que só não foi pior pela rede social que existe hoje.  Somos o estado com a maior população rural do país. Some-se a isso o aperto financeiro. Foi o ano mais duro, apertado, sob efeito de crises econômicas, que afetam muito um estado exportador e turístico como a Bahia. O primeiro ano sempre é o melhor. A própria população, na sua inteligência, sabe que é ano de adequação, de arrumar a casa. A população lhe dá crédito. A partir do segundo, as coisas não acontecendo, a população vai se amarrando.

O problema maior, então, é de dinheiro em caixa?
O problema do caixa foi nacional, não só baiano. Está todo mundo apertado. Com o aperto de dinheiro tem que desacelerar a velocidade de obras. Algumas obras têm que segurar um pouco, porque não adianta licitar e depois não conseguir pagar. Eu diria que vamos fechar o ano com uma visibilidade do problema melhor e vamos atravessar bem. Na verdade, o grande gargalo hoje é a Previdência. Temos um volume de aposentado grande. É quase a proporção de um aposentado para um da ativa. Só este ano vai ser preciso colocar R$ 2,1 bilhões para fechar a conta e ano que vem deve ser R$ 2,2 bilhões.

Não seria o caso, então, de direcionar, no orçamento de 2014 que está na pauta da Assembleia para votação, os royalties a receber do petróleo para a Previdência? A oposição afirma que isso não é o que propõe o projeto de lei enviado pelo seu governo para votação.
Está tudo aplicado na Previdência. A oposição não leu o projeto. Estou pedindo a autorização para colocar tudo no fundo da Previdência e não para custear a administração.

Um dos principais questionamentos dos servidores, principalmente da Educação e Saúde,  é o não pagamento da URV sobre perdas dos planos monetários. O senhor pagará o dinheiro no último ano de mandato?
Não posso pagar nada se não tiver uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). Na hora que tiver uma decisão, vou ser o primeiro a chamar para conversar. Se o estado for condenado a pagar, tem que fazer a conta e negociar o pagamento. A depender da conta, tem que parcelar.

O senhor acha que as greves da PM e dos professores prejudicaram o PT nas eleições para a prefeitura? Elas podem prejudicar Rui Costa como ocorreu com Nelson Pelegrino?
Cada episódio tem seu momento e custa seu preço. Eu separaria a greve da PM, que teve uma conotação diferente, era uma bandeira nacional, e houve outras questões envolvidas que eram muito mais complicadas. A natureza dela era outra, não que o mérito dela não valesse, mas a forma… Não adianta que não vou concordar nunca, porque quem é pago para fazer a segurança da população tem que saber como faz suas reivindicações. A dos professores acho que foi mal conduzida pela equipe que estava me representando na mesa de negociação. Não mediram, colocaram coisas na mesa que se mostraram depois inviáveis. Acabamos com um desgaste, foram quatro meses de greve, o momento mais crítico de 2012. Mas, se compararmos os últimos anos com os anos anteriores a nosso governo, fico à vontade e tranquilo, em todos os aspectos. Teve um trauma, mas depois houve um processo de reaproximação com a PM e o professorado. Se a oposição quiser apostar nisso, na minha opinião, vai apostar errado, porque tudo que é demais é sobra.

Um dos assuntos políticos do ano foi a inesperada relação entre o senhor e o prefeito ACM Neto, que é do DEM, a principal força de oposição ao PT no estado. O que facilitou?
Antes da nossa chegada ao poder estadual, a concepção política dominante, que era a do DEM, era completamente diferente da minha, de Dilma e Lula. Na cabeça deles, oposição era para exterminar. Lídice da Mata foi um exemplo disso, quando foi eleita prefeita, em 1992, na época em que Antonio Carlos (Magalhães) era governador. Óbvio que foi uma surpresa, porque as pessoas não estavam acostumadas com isso. Como no caso da eleição da prefeitura de Salvador, ele (Neto) era visto um pouco, talvez o símbolo daquele grupo, pensaram que era agora que viria o troco. Muita gente até sugeria isso.

Qual era sua resposta nessas horas?
Dizia: ‘Vamos fazer igual?’ Ele não está me enganando nem eu a ele. Se ele me chega com bons projetos, vou fazer o quê? Maltratar Salvador. Prefiro que meu exemplo sirva para educar a geração que está chegando na política, do que ficar reproduzindo o que tinha antes. Eu já brinquei até com ele, uma vez que estava Lídice em uma inauguração que fui, e disse que quem mais tinha inveja era Lídice, porque no tempo dela o tratamento não era assim.

A facilidade de trânsito que vocês construíram, o relacionamento…
(interrompendo) Administrativo!

De qualquer forma, vai se reverter em projetos para Salvador durante a Copa, que também é ano eleitoral?
Temos várias coisas acontecendo importantes. Tem o Réveillon, que é a prefeitura naturalmente que está organizando, mas somos parte, patrocinando. Tem o Carnaval também. As coisas da Copa estão mais ou menos prontas, é evidente que ainda há muito o que fazer. Devem haver muitas coisas que estarão acontecendo em conjunto, não tenho mesquinharia. O que não quer dizer que eu seja um aliado político do prefeito. Eu estou trabalhando, ele está trabalhando, ele é de um governo, eu de outro. Agora, o futuro ninguém sabe. É óbvio que, se eu puder diminuir o número de adversários, sempre trabalharei para isso. Vou carregar peso de graça?

E sobre as conversas com os partidos da base aliada, em que estágio elas estão?
Estamos mantendo o grupo unido. Mais recentemente a gente consolidou o PTB, já havia consolidado o PR, o PSC. Houve o episódio com o PSB, que eu esperava até manter no campo aliado, mas em função da decisão do PSB, acabou saindo da coligação. Sempre pode acontecer, mas não tem novas conquistas pela frente. É claro que tem outros partidos, o PV, que estamos conversando, mas a estrutura fundamental está pronta.

Como é que está a batalha pela camisa que está faltando, a de vice de Rui Costa?
Não tem nenhuma saída mágica, vai ser conversa e convencimento, até que a gente chegue a um nome. Não só tem o PP e o PDT na aliança, mesmo eles sendo os dois maiores. Todo mundo quer mais, é da vida.

Em relação a Rui Costa, que tem um estilo considerado mais duro que o seu, o senhor está dando umas aulas de molejo verbal para ele?
Tenho meu estilo, que as pessoas gostam, ele tem o dele. E ele terá que se fazer gostado também. Mas falei que ele não precisa ser meu advogado na campanha. Sei me defender, não o quero para isso.  E vamos ser justos. Rui foi meu articulador político no primeiro mandato. Não me parece que foi mal. Costurou maioria de prefeitos, se colocou como candidato a deputado federal, teve 210 mil votos, foi o mais votado da nossa coligação. Perdeu apenas para Neto e Lúcio (Vieira Lima, do PMDB). Um cara que tem essa votação também não parece que é ruim de urna. Foi vereador de Salvador, o mais votado da nossa coligação. Não dá para dizer que estamos inventando alguém.

E depois que deixar o governo, vai mesmo para um ministério?
Não sou de ficar ruminando sobre o que vou fazer em 2015. Minha cabeça está focada em 2014, em eleger Dilma, Rui e Otto. Terminando a eleição, vamos avaliar como está o quadro. Não há nenhuma combinação com a presidenta. É uma possibilidade, mas não tem nada acertado.

A primeira-dama está mais contente com a proximidade do fim de seu governo?
Mulher, filhos, netos, a família é sempre quem paga o preço maior, quem sofre mais. Afinal, você chega com a cabeça cheia de pepinos. Se ouve alguém fazer uma crítica mais dura, sente muito. Mas a política é dom, é paixão.

O senhor está com uma fitinha nova do Bonfim. Já fez os três pedidos?
Já, mas nunca são pedidos  materiais. É o de sempre: saúde e paz para a família, para a Bahia e o Brasil, prosperidade, que a gente tenha um ano melhor e, óbvio, que a gente tenha um resultado positivo em outubro (risos).

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