ROBERTO FREIRE

A vinda ao Brasil da blogueira e ativista cubana Yoani Sánchez, lutadora pela abertura política em seu país, tinha tudo para se transformar em uma grande festa da democracia.

Depois de ter o visto de saída de Cuba negado 20 vezes nos últimos seis anos, Yoani finalmente conseguiu ultrapassar as fronteiras cubanas, mas desde o desembarque em território brasileiro vem sendo alvo de covardes manifestações que ultrapassaram o direito legítimo ao protesto e apelaram à violência.

Um fato insólito: quando Cuba, mesmo que timidamente, avança na abertura, o Brasil regride na intolerância. Tanto no Recife quanto em Salvador, por onde passou inicialmente, a blogueira foi hostilizada e teve notas falsas de dólar esfregadas em seu rosto por agressores que atuam como em verdadeiras hordas fascistas.

Em Feira de Santana, na Bahia, manifestantes ocuparam o auditório onde ocorreria a exibição de um documentário que contou com a participação de Yoani e não permitiram que a cubana falasse por mais de 15 minutos. O grupo obrigou os organizadores a cancelarem a exibição do filme, atentando contra a democracia e a liberdade de expressão.

Para quem, como eu, ingressou no Partido Comunista Brasileiro acreditando na construção de uma sociedade mais justa e inspirado pelos ideais da Revolução Cubana, que embalaram os sonhos de toda uma geração, é doloroso constatar que a esperança tenha sido derrotada pelo obscurantismo que tenta calar a liberdade.

Naquele momento, lutávamos por um mundo igualitário. Hoje, infelizmente, alguns jovens se unem para impedir a livre manifestação de uma blogueira.

Para agravar a situação, a ação intolerante desses grupos contou com a conivência do governo brasileiro, na medida em que um de seus funcionários, Ricardo Augusto Poppi Martins, assessor direto do ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência, participou de reunião com o embaixador de Cuba no Brasil, conforme revelou a revista “Veja”.

No encontro, o embaixador informou que Yoani seria vigiada por agentes cubanos durante sua passagem pelo país e entregou ao subordinado do ministro um dossiê secreto com informações sobre a blogueira.

O pior é que se trata de um comportamento recorrente do governo Dilma, que já havia ignorado solenemente a participação indevida do embaixador da Venezuela em um ato organizado pelo PT em defesa do ex-ministro José Dirceu, condenado pelo STF no mensalão.

Ambos os episódios ferem os princípios da não interferência em assuntos internos de outras nações e da autodeterminação dos povos, historicamente respeitados pelo Brasil em fóruns internacionais.

Ao contrário daqueles que intimidaram a blogueira, a verdadeira esquerda democrática brasileira tem um compromisso histórico com a pluralidade, a tolerância e o respeito à divergência e aos direitos fundamentais.

Os ataques não se limitam à cubana e dizem muito sobre o período histórico em que vivemos, sob o comando de forças políticas que representam o atraso, vilipendiam as instituições e afrontam a liberdade. Atacar Yoani é golpear a democracia que construímos com tanto sacrifício.

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